Econotícias Online

Data: 01.02.2016

A indústria do plástico e o brincar no Brasil

Não faz muito tempo, a Lego, grande fabricante de brinquedos, anunciou que, até 2030, irá substituir o plástico em seus produtos por materiais sustentáveis. Desde 1958 desenvolvendo peças de acoplagem, a decisão da empresa dinamarquesa não é à toa: a imagem do plástico como vilão ambiental vem ganhando força nos últimos anos.
 
Fama merecida: o plástico leva em média 400 anos para se desintegrar e representa 70% do lixo encontrado nos oceanos.  As empresas e associações do setor se defendem, alegando que o problema não está no plástico em si, mas na destinação que se dá a ele. Para disseminar esta ideia e se desresponsabilizar frente aos danos causados pelo material, já investiram, somente nos EUA, mais de US$ 15 milhões em publicidade.
 
Utilizado há mais de 100 anos como alternativa a madeira, metal, marfim, entre outros materiais, o plástico no Brasil apresenta um consumo modesto comparado a outros países – 46 quilos (kg/habitante), número em plena ascensão.
 
Fortemente vinculada ao entretenimento (personagens e marcas) e ao marketing, a indústria de brinquedos de plástico dissemina o ideário de brinquedo seguro, higiênico e econômico. Dados da Xalingo, uma das dez maiores empresas do setor no Brasil, mostram que o plástico foi a matéria-prima de 81% dos produtos do setor nos últimos 30 anos, contra 19% de brinquedos de madeira.
 
Uma rápida visita aos parques e estantes de brinquedos de escolas públicas e privadas do país revela a predominância do plástico. A entrada desse tipo de material ocorre por meio da gestão de recursos financeiros das próprias escolas, entretanto, é endossada por pregões e atas de compra de materiais realizadas pela autarquia responsável na execução de políticas educacionais do Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
 
A última edição do pregão de compras de brinquedos para área externa de parques escolares das regiões sul e sudeste (pregão eletrônico nº40/2013) retrata bem esse cenário. No catálogo de produtos, a maioria é de polietileno, um dos plásticos mais comuns e baratos comercializados no mundo. O fato é no mínimo curioso, pois contraria as referências legais do próprio MEC, que apontam para a importância das experiências de bebês e crianças com materiais de origem natural como terra, madeira, água, areia, pedras, plantas, folhas e sementes.
 
Um pouco de história
 
A presença de elementos da natureza faz parte do brincar das crianças brasileiras, desde antes da chegada dos portugueses por aqui. Durante todo o período colonial, do Império e República, o brinquedo era a natureza. Feitos com cascas de frutas, seixos de madeira, ossos de animais ou conchas.
 
O brinquedo manufaturado, inicialmente miniaturas de objetos utilizados por adultos, é trazido ao Brasil por famílias ricas da Europa e, no final do século XIX, passa a ser fabricado por pequenas indústrias instaladas no país. Com o passar do tempo, o conceito de progresso atrelado à industrialização e à urbanização da população brasileira coloca os materiais naturais como algo de menor valor. A natureza passa a ser vista como algo a ser domesticado e afastado das crianças por seus supostos perigos.
 
Transformar o mundo
No brincar das crianças, os elementos da natureza proporcionam a experiência de transformar o mundo pelas mãos. Dedos ágeis que estalam um fruto rígido e oco na disputa de pião; mãos que dão vida às figuras de animais entrelaçando fios; o achado de uma pequena pedra redonda para ser lançada no bodoque – exemplos das marcas deixadas pelas crianças brasileiras ao longo da história. E você, leitor, quais brinquedos construiu na infância com materiais da natureza?
 
A natureza oferece, também, outra qualidade de experiência sensorial, diferente da uniformidade do brinquedo de plástico – são pesos, texturas, resistências, profundidades, formas, cores, características que ampliam a possibilidade de imaginação e criação.
 
Em um mundo fortemente marcado pelo consumo não consciente de materiais vendidos como educativos, cabe a pais, educadores, órgãos públicos e toda sociedade civil a reflexão contínua sobre os materiais que oferecemos às crianças. Discussão que vai muito além do que as empresas de brinquedos vendem com o selo de“infantil”.
Raquel Franzim conexaoplaneta.com.br/blog Foto: mufiidpwt/Pixabay
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