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Data: 31.03.2012

CLAUDIO KOETZ DO PAISAGISMO AO AMBIENTALISMO

 

Filho de Alemão e pai de nove jovens, herdou o conhecimento da família que sempre trabalhou com plantas e árvores. Sócio de um viveiro que produz espécies da Mata Atlantica, Cláudio é Produtor Rural, Paisagista e Ambientalista. Referência no estado de São Paulo, foi um dos fornecedores para a compensação ambiental do Tietê e do Rodoanel, e nos fala sobre isso. 

 

(EN) Qual sua formação?

 CK - Sou paisagista autodidata, pois como já tinha como hobby produzir espécies não  convencionais, aproveitando a estrutura de produção da nossa família, tinha que criar espaços onde essas plantas de encaixassem e se destacassem, e isso com 12 anos de idade. Minha mãe, Margarida Rohn, e meu tio Erico Rohn, participavam de feiras de plantas, tradicionais do Estado de São Paulo, como a Feira do Verde e Festa da Primavera, ambas na Marquise do Parque do Ibirapuera. Havia uma premiação para o stand mais bem ornamentado e eu cresci assistindo a essas premiações. Um dia pedi a minha mãe que deixasse a ornamentação comigo, com “toda” a minha experiência de 14 anos de idade! Receosa - mas dando um voto de confiança, pois nunca tínhamos ficado acima do 17° lugar (posição honrosa para uma feira que tinha em média 150 participantes) - chegamos em terceiro com direito a troféu e todas as honras. A partir desse ano (1979) virei o decorador de stand oficial da empresa e aí tive uma sequência de terceiros e segundos lugares nas duas feiras anuais que participávamos, até que em 1982 ganhamos dois primeiros lugares. Fui até 1989 sempre ganhando o primeiro lugar, e nesse meio tempo - já com 18 anos - fiz meu primeiro trabalho de paisagismo remunerado em Alphaville. Daí pra frente foram vários trabalhos executados.

 

(EN) Seus avós introduziram algumas espécies em nosso país. Além do Ficus, qual delas?

CK - Na verdade meu bisavô Sthephan Rohn que era botânico, quando chegou ao Brasil em 1924 desceu do navio no Rio de Janeiro. Numa parada antes de chegar ao porto de Santos foi visitar o jardim Botânico do Rio e encontrou algumas sementes de Palmeira Imperial. Coletou e as trouxe para a propriedade que fora indicada por amigos alemães que já se encontravam no que hoje é a Aldeia de Barueri. Depois de adquirida a área plantou as sementes, das quais somente uma germinou e pode ser vista até hoje na propriedade, com seus 88 anos de idade e mais de 30 metros de altura. Até se iniciar o plantio de espécies ornamentais, meus avós plantavam flores de corte, especialmente Rosas. Depois das estufas prontas, na década de 50, iniciaram – se os plantios de Gloxinias, Violetas, Begônias, Anturium, Orquídeas, Samambaias, etc.

A introdução de espécies exóticas no plantio comercial se deu, na verdade, depois que meu tio Erico foi em 1976 representar o Brasil na Bélgica, como um dos maiores produtores de plantas ornamentais do Brasil. Ele percebeu a necessidade de se produzir espécies arbóreas que pudessem se  adequar à decoração interna de casas e escritórios. Aí sim se deu a introdução dos Ficus, Dracenas, Yucas, Palmeiras diversas, Crotons e tantas outras. Mas o grande mérito, na minha opinião, foi a introdução de espécies nativas na produção comercial e sua colocação nos jardins residenciais de São Paulo, mudando o conceito de diversos arquitetos e urbanistas que insistiam no estilo de jardins europeus.

 

(EN) Como foi o processo de influência de seus avós, até tornar-se produtor e paisagista?

CK - Eu nasci no meio de plantas, portanto isso está inserido no meu DNA. Não pude acompanhar o estilo de produção do meu avô, Guilherme Rohn, pois ele faleceu quando eu tinha dois anos, mas acompanhei meu tio Erico Rohn na Aldeia de Barueri.  Quando nasci, minha mãe, Margarida Rohn e meu pai, Hartwig Franz Ferdinand Koetz, já produziam rosas na propriedade deles, onde hoje é o Parque Viana e onde eu mantenho minha empresa, então eu digo que nasci produtor de plantas ornamentais. Depois que meus pais se separaram, minha mãe se dedicou à produção de plantas ornamentais quando recebeu, pela Folha de São Paulo, o título de “Rainha das Begônias”. Mas produzia também Samambaias, Avencas, Violetas e depois foi precursora do plantio e comercialização de plantas medicinais, temperos e ervas aromáticas. Também foi dela a influência na introdução ao paisagismo, visto que os primeiros jardins de Alphaville foram por ela executados. Meu pai produzia mudas de rosas e forrações floríferas de época. Ele foi responsável pela introdução de plantas como o Amor – perfeito, Onze horas, Tagetes, Boca – de – leão, etc. Além da influência do meu tio e da minha mãe no paisagismo, considero o meu convívio com o Sr. Wladislaw Babuska por doze anos até o seu falecimento aos oitenta e oito anos como o divisor de águas da minha carreira como paisagista, pois ele tinha um respeito e um amor tão grande pela natureza que me ajudaram a ter respeito pelas plantas e por tudo que elas podem te oferecer! Desta forma, jamais plantar sem fornecer elementos que deem condições para que elas possam se desenvolver e nos retribuir com o que elas têm de mais belo: suas flores, frutos, cores, texturas e vida. Transporto isso para todos os meus projetos, sejam eles grandes ou pequenos. Respeito as plantas como um seres vivos capazes de proporcionar a vida.

 

(EN) Em que ano finalmente montou seu viveiro e passou de técnico a empreendedor?

CK - Apesar de sempre ter me dedicado à produção de árvores nativas raras e não tão raras assim, sempre tive a visão voltada para a exuberância da espécie, fosse ela na sua florada e frutificação ou forma e tamanho. Durante esse meu aprendizado com o Sr. Babuska, percebi a importância de se produzir as espécies que compunham o ecossistema destas árvores exuberantes, pois na maioria dos plantios o desenvolvimento dessas espécies dependia das outras plantas nativas do seu entorno. Aí comecei a estudar os diversos biomas e me dediquei ao desenvolvimento do projeto do viveiro. Em 2003, juntamente com o meu sócio na época e meu amigo até hoje, o Sr. Harolde Thadeu Vieira, tínhamos o projeto pronto, mas não o capital necessário para a empreitada. Em 2004, executando a implantação de um projeto paisagístico na residência do empresário do ramo de geração de energia através de biomassa, com grande visão na área de preservação ambiental - o Sr. Claudio Gomes Marques - conversamos com ele sobre o projeto do viveiro. Ele de imediato aceitou investir e participar dessa nova empreitada. Assim, mudamos o razão social da nossa empresa de Vieira e Koetz Comércio de plantas e paisagismo, que já existia desde 1996 e fundamos a Equilíbrio Verde – Projeto Ambiental, que hoje conta com uma capacidade de produção de 1 milhão de mudas nativas/ano numa área de catorze alqueires, dos quais sete são preservados no município de São Roque, mas ainda mantemos nosso escritório – chácara em Barueri.

 

(EN) Sua empresa destina parte dos lucros para algum projeto ambiental, ou desenvolve algum, sem ser como prestadora de serviço?

CK - Na verdade destinamos parte da produção para doação a instituições que desenvolvem projetos sérios nas áreas de recuperação de áreas degradadas, mas os projetos têm de ser sérios e viáveis, pois o meu respeito pelas plantas continua o mesmo. Desenvolvemos projetos experimentais dentro da nossa propriedade envolvendo principalmente espécies da Mata Ciliar, para proteção de rios, lagos e nascentes.

 

 

(EN) Você fez alguns trabalhos de recuperação de nascentes. Como se dá o retrocesso da degradação nesse caso? Quais as espécies envolvidas?

CK - O trabalho é simples na implantação e complexo quanto ao desenvolvimento das espécies, pois você precisa desenvolver as espécies do bioma nas condições que serão encontradas por estas plantas no local da implantação. Simplificando: estas áreas normalmente são áreas encharcadas ou que tem água muito próxima à superfície. Então você não pode desenvolver estas mudas específicas como outras que serão introduzidas em terrenos secos, pois se assim o fizer a planta estará acostumada a um terreno seco e quando se fizer o plantio na área úmida, as raízes que se acostumaram a regas periódicas irão apodrecer devido ao excesso de umidade, portanto no nosso viveiro temos um setor onde desenvolvemos estas plantas com um sistema de irrigação diferenciado. Assim quando plantadas, estas não precisarão passar por um período de adaptação, que geralmente causa a morte das plantas. Poderíamos desenvolver plantas com o conceito meramente comercial, mas eu estaria indo contra meus princípios. As espécies mais utilizadas são: Sangra d’água, Capixingui, Suinã, Mulungu, Ingá, Embauba, Tapia, Ipê do brejo, Pau – viola, Jerivá, Palmito Jussara, Paineira, Pau – formiga, Genipapo, Figueira – branca, Moncubá, Aroeira, Corticeira e mais umas sessenta espécies, havendo grande variação pelos diversos biomas.

 

(EN) Por que ainda hoje não existem grandes programas para recuperação de nascentes?

CK - Por que 99% dos nossos governantes enxergam as questões ambientais como problema. Para estes eu diria um velho provérbio indígena que diz: “Só depois da última árvore derrubada, do último rio poluído, do último peixe morto, o homem vai perceber que dinheiro não se come”.

Já vivenciei em diversos empreendimentos crimes ambientais como drenagem de nascentes, aterramento de brejos, cortes de árvores ameaçadas de extinção e outros movidos quase sempre pela ganância e às vezes por falta de conhecimento das partes envolvidas. O que é protegido, recuperado e preservado a qualquer custo em grande parte do mundo - que são as nascentes, córregos, rios - devido a escassez e a grande importância desse produto vital para a vida que é a água, aqui recebe um tratamento ridículo devido a fartura do produto. Não existe a vontade política de se por em prática o que nós temos desenhado na teoria porque são ações que levam dez, vinte, trinta anos e a maioria dos políticos de hoje estão preocupados com ações que deem repercussão imediata. Não estão pensando nas futuras gerações, se esquecendo que seus filhos, netos e bisnetos também pagarão a conta. Precisamos mudar a mentalidade dos políticos ou mudar só os políticos, pois é inadmissível que em cargos ligados ao meio ambiente sejam ocupados por pessoas que não tem nenhum conhecimento ou engajamento com as questões ambientais. Precisamos trazer mais jovens e pessoas de bem para o meio político usando o que temos de mais valioso e poderoso: o voto.

 

(EN) Ainda sobre nascentes, o senhor imagina quantas delas podem ser recuperadas em nossa região? O que é necessário para que isso se concretize?

CK - Todas podem ser recuperadas, desde que haja espaço físico necessário para implantação das espécies vegetais necessárias. Para que isso se concretize, são necessárias basicamente duas coisas: vontade política e cobrança da população.

 

(EN) O senhor foi um dos fornecedores da Ecovias para compensação do Rodoanel. Como o senhor avalia esse processo?

CK - Forneci mudas para o trecho sul do Rodoanel e para a compensação da Marginal Tietê. Em ambos os casos abandonei o fornecimento, pois o método de implantação ia totalmente contra o bom senso. A única coisa que interessava era o marketing do “estamos plantando 1 milhão de mudas nativas (caso do Rodoanel) e 40 mil mudas na Marginal”. Agora eu pergunto: onde estão estas mudas??? No Rodoanel forneci para o primeiro lote com seiscentas mil mudas. 60 mil mudas eram em tubetes, que só se desenvolvem se o plantio e manutenção forem executados com materiais e por pessoas que tenham conhecimento prático desse processo - o que não aconteceu. Aí a consequência foi a morte de 590 mil mudas que foram replantadas com o mesmo critério e novamente a mortalidade foi gigantesca, resumindo: falta de respeito com as plantas e com o dinheiro público.

No caso da marginal eram árvores maiores, mas os erros foram igualmente grosseiros: as árvores foram plantadas de forma inadequada, sem colocação de um composto próprio para que as mudas tivessem nutrientes necessários para o seu enraizamento e desenvolvimento, sem contar que a rega também era feita da maneira errada. Acho que todo processo de licitação e implantação estava errado desde o início (a empresa vencedora fazia sinalização de rodovias e manutenção de canteiros de rodovias, ou seja: corte de grama ). Outra coisa que precisa mudar é a forma de licitação quando o assunto for arborização e paisagismo. O vencedor é sempre quem dá o menor preço e, nessas questões, qualidade e preço andam lado a lado; é impossível que a empresa que deu o menor preço execute o serviço com a qualidade necessária para que as plantas se desenvolvam. A questão deveria partir do melhor projeto de implantação e haver uma fiscalização técnica que acompanhasse a evolução do projeto e a mesma empresa vencedora faria a manutenção desta área por dois anos, sendo responsável pela substituição, sem pagamento de material e mão – de – obra de qualquer planta que viesse a morrer. Isto traria qualidade de implantação, valorização de bons profissionais e - a médio prazo - economia aos cofres públicos e privados. Mas isso requer uma mudança do ponto de vista atual, temos que compreender que plantas são seres vivos e precisam de cuidados básicos para se desenvolver.

 

(EN) Qual o projeto mais marcante de sua vida?

CK - Acho que todos os projetos que executei foram marcantes de alguma forma na minha vida, mas posso ressaltar alguns: o primeiro jardim que executei, com dezoito anos, foi para a dona da Bunny´s. Na época (eu) tinha muito mais cabelo e um visual bem Rock ´n´ Roll (sou rockeiro até hoje e serei até o fim dos meus dias), e isso causava uma certa estranheza nos possíveis clientes e principalmente nos seguranças das portarias dos condomínios, onde meu carro era sempre o mais revistado e onde era dada uma descrição minuciosa da minha pessoa. Depois da obra concluída, que era em um lote grande do Alpha 2 e onde usei plantas não muito convencionais na época, o jardim chamou tanto a atenção que várias pessoas deixavam seu endereço na portaria e diziam: “ Pede para aquele jardineiro cabeludo passar lá em casa”. Acabou virando minha marca registrada. Outra obra foi o projeto de execução do trecho da Alameda Araguaia que ia do Carrefour até quase o túnel. Hoje infelizmente bastante descaracterizado, mas na época, projetei as calçadas pelo meio do canteiro e fiz diversos canteiros com flores e arbustos de diferentes cores e texturas, proporcionando agradabilidade visual e segurança para os pedestres, pois os afastavam do meio fio. Este projeto foi bastante elogiado pelos usuários e até pelo Sr. Benedito Abbud, que estava executando uma obra próxima e que eu considero o maior paisagista-urbanista dos tempos atuais. E também muito marcante, foi a minha última obra entregue no parque municipal Dom José, em Barueri, por se tratar de um jardim oriental, muito estudado e planejado, onde usamos unicamente plantas orientais e formações simbólicas com rochas, lanternas, cascatas, riachos - um com água e outro sem - simbolizando a vida e a morte. Isso me fez adentrar no conhecimento oriental e me fez admirar ainda mais a cultura e as tradições desse povo fantástico. Gostaria de ressaltar que o projeto foi desenvolvido junto com meu amigo Hugo Castanho Junior, que é artista plástico, desenhista, taxonomista e profundo amante da natureza. Para implantar os projetos, sempre tive o auxílio e a companhia da minha equipe de execução, dos quais muitos estão comigo depois de trabalhar com minha mãe e meu pai. Estão acostumados a trabalhar seguindo os princípios da qualidade e confiança. Considero todos como membros da minha família.

 

(EN) Por que a decisão de ser pré-candidato a vereador ?

A decisão de adentrar na política veio principalmente por me sentir apto e maduro o suficiente para entrar e acreditar que posso mudar alguma coisa nas questões socioambientais do município, por estar no PV e ter o verde no meu DNA, por hoje acreditar que pessoas de bem, que podem somar, têm obrigação de participar das decisões políticas da cidade, pois a política está diretamente envolvida em todos os atos, ações e reações do nosso dia a dia. Quando fui convidado pelo Sr. Zicardi a ser pré – candidato confesso que me assustei. Comentei sobre o convite em casa e recebi apoio. Como tenho nove filhos - dois quais seis já votam - pensei: “saí na frente”! Comentando com amigos todos disseram que me apoiariam e trabalhariam para que eu chegasse lá. Isso me deu segurança, mas ainda tenho algumas barreiras a serem vencidas. A mais grave é a dificuldade de falar em público: se eu estiver sentado no mesmo nível dos outros, converso o dia inteiro, se tiver que subir numa caixa de fósforos para falar, eu travo. Nunca fui político, mas amo minha profissão, amo minha cidade e me preocupo com questões até hoje meio esquecidas, então sei que posso contribuir.

 

 

 

Aggnes Franco

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