Econotícias Online

Data: 24.02.2012

PAUL WATSON - O HOMEM DOS MARES

Paul Watson foi um dos fundadores do Greenpeace, mas rompeu quando seus colegas o recriminaram por ter colocado sua vida em risco para salvar uma foca. Saiu da fundação verde e montou a Sea Shepherd, uma das ONGs mais radicais do mundo. As campanhas mais famosas do coletivo são as expedições à Antártida, onde o capitão e voluntários do mundo todo passam dias e noites em um velho navio tentando impedir os japoneses de pescar baleias. Sua ação virou uma série/documentário batizado de Whale Wars – Defensores de Baleias, que vai ao ar no Brasil pelo canal Animal Planet. Formado em Comunicação Social e ex-professor universitário, é autor de livros com táticas de “eco defesa” para orientar ativistas de todo o mundo. Watson aceitou nos conceder uma entrevista através de Skype. O resumo foi publicado na Edição 004 de EcoNotícias, e a íntegra que você confere agora.

(EN) Por que dedicar sua vida a salvar outras vidas?

PW - (risos) Que pergunta estranha! Acho que devemos olhar para este planeta como uma nave espacial e há dois grupos de seres nessa nave: tripulação e passageiros. Somos os passageiros. A tripulação é composta pelas espécies que proporcionam nossa vida aqui, desde as bactérias, insetos, peixes, enfim... Por causa deles, podemos viver. Se eles desaparecerem, não podemos viver. Fui criticado uma vez por que eu disse que os vermes da terra são mais importantes que as pessoas, e todo mundo ficou incomodado com isso: “Como você pode dizer algo tão horrível?” Bem, eu disse isso porque é verdade. Os vermes podem viver sem as pessoas, as pessoas não podem viver sem os vermes. Nós precisamos deles, eles não precisam de nós. Nós precisamos das formigas, besouros e bactérias, eles não precisam de nós, então o que precisamos entender é que somos passageiros nesta nave que é dirigida por todas essas outras espécies das quais somos dependentes. É por isso.

(EN) Esse é um pensamento bastante biocêntrico.

PW - Sim.

(EN) O senhor poderia falar um pouco sobre a diferença de uma sociedade biocêntrica e antropocêntrica?

PW - Quase todas as espécies do planeta são biocêntricas e assim tem sido nos últimos 10 mil anos, mas os humanos surgiram com um ponto de vista antropocêntrico, o que significa que acham que o mundo gira em torno de nós. Isso é ridículo, sem contar toda a concepção filosófica de que criamos tudo e tudo foi criado para nós. Isso é incrivelmente ignorante e arrogante. O fato é que somos praticamente insignificantes. O planeta está aqui há três bilhões de anos e nós estamos aqui há uma pequena fração disso. Se você pegar toda a história do planeta e colocar em um ano nós chegamos por aqui no último segundo, mas continuamos construindo em nossa mente que tudo foi criado por nós. Se não aprendermos a respeitar as espécies que tornam a vida nesse planeta possível, não sobreviveremos.

(EN) Sobre esse respeito do qual fala, em diversos livros e entrevista o senhor diz que é importante as pessoas estarem conectadas à Terra, bem como entenderem o que isso significa. Como é possível fazer com que aqueles que não têm tal essa inclinação, sejam de algum modo tocados?

PW - Eu acho que a maior parte das pessoas encontra isso sozinha, por serem prejudicadas de alguma forma por alguma destruição da natureza, ou quando eles ou alguém próximo tem um câncer ou alguma doença causada pelo ambiente, ou alguma outra sensação de perda. Isso acaba motivando mais. No meu caso eu envolvido por isso aos 10, 11 anos, porque eu convivia muito com os castores e os considerava meus amigos, mas eles foram sumindo por causa dos caçadores, por isso acho que as coisas devem impactar de uma forma emocional mais que qualquer outra coisa. Mas é claro que as pessoas podem se tocar a partir de um ponto de vista intelectual... Mas estamos muito preocupados com nós mesmos... Bem, somos primatas e primatas tendem a ser egoístas e nós por natureza, o mais egoísta de todos eles...

(EN) Em sua opinião, qual é então o papel do homem?

PW - Eu não acho que temos algum papel específico. Somos resultado de um processo evolutivo desde nosso surgimento na África. Não há nada natural nas coisas que fazemos, no modo como vivemos, mas também não há nada natural em levarmos nós mesmos à extinção... Nós exploramos os recursos em torno de nós, mas se escolhemos fazer isso não de forma sábia, e fora das três leis da ecologia, que são a lei da adversidade (o que significa que se acabarmos com ela teremos problemas), a lei da interdependência entre as espécies, ou seja, as espécies dependem umas das outras, e a lei dos recursos, o que significa perceber que há limites para o crescimento, para a capacidade de sustentar o crescimento. Nesse momento estamos roubando essa capacidade das outras espécies conforme nossa população cresce... Certamente não é interessante para o planeta manter sete bilhões de primatas humanos aqui - e com números crescentes - e é claro que ninguém tem interesse em falar sobre a questão do crescimento populacional porque vivemos em uma sociedade que econômica e filosoficamente vive pelo crescimento e para o crescimento. Ninguém vai questionar isso.

(EN) Isso me faz lembrar quando o senhor afirma que para o ser humano quantidade é mais importante que qualidade. Como o senhor avalia essa situação e como é possível reverter esse quadro?

PW - Bem, nós vivemos na geração mais educada que a Terra já teve. Não há desculpas para as pessoas não estarem em alerta sobre o que pode acontecer em sua volta. A gente simplesmente escolhe não prestar atenção. Não é que não saibamos, é que não nos importamos! E fazer as pessoas se importarem é o desafio. Pessoalmente eu acho que a resposta para isso (n.e. reverter o quadro atual) é impossível, mas o impossível ás vezes é uma resposta. Voltando em 1972, as ideias apresentadas para a África por Nelson Mandella eram inimagináveis, impensáveis, impossíveis, e se tornou realidade! Então eu acredito que há uma solução razoável possível, mas precisamos optar por encontrar esta solução, ou, a Terra tomará a decisão por nós. Então seria muito melhor para nós tomarmos voluntariamente esta decisão, porque a natureza tem sido rude ao tomar esse tipo de atitude. O que vemos é que o meio ambiente pode entrar em colapso. Talvez a melhor forma de explicar isso às pessoas é com a analogia da nave (n.e. vide primeira resposta)...

Nós protegermos os peixes. Peixes são mais valiosos para o oceano do que nós somos em nosso “teatro” porque eles mantém a integridade da vida marinha. Se o sistema de vida marinha morrer, se os oceanos morrerem, nós morreremos também. Não há como sobreviver neste planeta sem o oceano, então, a proteção dos mares deve ser prioridade, e cuidar deles é a maior contribuição que podemos dar para nossa sobrevivência. O mar provê de 70 a 80% do nosso oxigênio e isso tem que ser mais importante que servir sushi... Todas as nações tem explorado comercialmente os oceanos - que na realidade não pertencem a ninguém - mas parece que têm sido explorado por todos. E sem colocarmos luz sobre isso, a destruição virá. Então cada comércio de peixe está agora a ponto de entrar em colapso. Os peixes estão com problemas! Plantas aquáticas, baleias, golfinhos, todos estão com problemas e como somos egoístas não percebemos isso. Estamos mais preocupados com quantos atuns precisamos tirar do mar para colocar na boca de toda essa gente, e fazer as pessoas pensarem sobre sua dieta e quem sabe excluir os peixes dela é muito difícil. Mas precisamos tomar esse tipo de decisão ou não haverá peixe algum, para ninguém... Espera-se que as pessoas tenham filhos e esta é a maior responsabilidade que você pode ter. Para isso você deve se preparar para dedicar-se por no mínimo 18 anos. As pessoas estão tendo filhos mas na verdade não se importam com eles. Não as amam, não proporcionam a eles uma educação adequada. E acho uma irresponsabilidade trazer ao mundo essas crianças, sem ter garantias para suas necessidades básicas, mas as pessoas tomam essas decisões por questões individuais! E quando me perguntam por que não tenho mais filhos, digo que não quero mais contribuir com a explosão populacional. E normalmente essas pessoas são inteligentes e quando percebem o que isso quer dizer, ainda assim optam por ter filhos. Então, realmente é impossível, mas a natureza vai tomar uma decisão por nós.

(EN) O senhor teve alguns encontros com importantes líderes espirituais, como Dalai Lama e chefes indígenas. Foram encontros marcados ou aleatórios?

PW - Eu acho que possivelmente encontros aleatórios, como quando Dalai Lama me mandou uma estátua de um Buda que representa a infância, a paixão da infância segundo ele me explicou. Eu possivelmente aprendi mais com os povos nativos da América, e uma das lições é que não se deve tomar nenhuma decisão em sua vida se você não souber qual a consequência disso para as futuras gerações. Tenho vivido minha vida de acordo com isso. Não sou exatamente uma pessoa “espiritual” porque acho que isso tem uma natureza muito antropocêntrica e acho que o que precisamos aceitar é que somos parte da natureza... Devemos ser felizes por estarmos em um planeta com tanta riqueza e diversidade, aproveitar isso e não nos preocuparmos ou fantasiarmos na hipótese de sermos felizes depois da vida (risos).

(EN) No livro Earhforce – Um guia estratégico para o Guerreiro da Terra, o senhor diz que precisamos submeter a intuição à razão. O que isso significa?

PW - Acho que entendemos a coisa melhor quando passamos a analisá-la. O melhor exemplo é com crianças. Muitas vezes as crianças têm as resposta e ignoramos porque colocamos a “razão” na frente, mas elas usam muito mais a intuição. Quando eu era criança eu sentia e sabia muitas coisas que meus professores consideravam loucura. Uma delas é que eu achava que os continentes eram como um quebra-cabeça, que eram todos uma coisa só e me diziam que isso era ingênuo. Anos mais tarde isso se confirmou. Eu achava que alguns dinossauros não eram repteis, eram aves. Eles pareciam aves, moviam-se como aves, e mais uma vez isso se confirmou anos à frente, então precisamos prestar atenção no que elas têm a dizer e na influência que exercemos sobre elas. Acho que as crianças podem nos ensinar mais do que nós ensinamos a elas.

(EN) O senhor concorda quando dizem que os valores estão mudando?

PW - Sim, os valores estão mudando, a evolução muda constantemente a sociedade, só não sei se para melhor. Lembro-me em 1972 colocamos um outdoor em Vancouver (Canadá) com uma palavra grande escrito ECOLOGIA e pequenas letras dizendo: “Preste atenção. Envolva-se”. Naquela época ninguém nem sabia o significado da palavra ecologia, então certamente fizemos um grande progresso aí. A ideia de uma dieta vegetariana ou vegana não era nada usual, e hoje vem se tornando mais aceitável e uma corrente importante... Olhando para o passado recente da humanidade, acabamos com a escravidão na maioria dos países, as mulheres passaram a ter seus direitos garantidos e a influenciar mais no mundo, e agora estamos falamos não apenas de direito dos animais, mas de toda a natureza. Assim, acho que é uma evolução social boa mas não acho que estamos avançando com velocidade suficiente para resolver nossos problema.

(EN) E qual a pessoa mais poderosa do mundo, que talvez pudesse resolver?

PW - Mais poderoso de modo bom ou mau?

(EN) Como preferir.

PW - Acho que é o presidente do país mais importante do mundo, ou seja, Barak Obama... Ele traiu as baleias, vendeu o país para a British Petroleum, mas é mais ou menos a mesma prática em todos os países, o que difere é o grau de poder. No Brasil mesmo, Silva (n.e. Lula) praticamente vendeu o país para a Monsanto. Não sei por que alguém dá as chaves de seu país para uma corporação como essa, mas enfim... É muito difícil encontrar um presidente, um primeiro ministro fazendo alguma coisa realmente boa... Não consigo pensar em nenhum agora. Depois do Nelson Mandella tudo desabou na África do Sul... Colocaram aquele Zuma achando que ele ia curar a AIDS mas ele estuprava virgens...

(EN) Farei algumas rápidas perguntas. Um autor.

PW - Meu Deus, não sei... Ficção ou não ficção?

(EN) O que o senhor preferir.

PW - Gosto de Julio Verne, Farley Mowat... Mas prefiro Farley Mowat.

(EN) – Um líder.

PW - Ah, Deus... Líder... Um bom líder... Não há na verdade bons líderes (risos). (pensa por alguns segundos) Não. Não há mesmo bons lideres.

(EN) Um medo.

PW - O único medo que eu tenho é das pessoas não fazerem coisas suficientes para salvar esse planeta, e que acabemos no inferno (risos). Não tenho nenhum outro medo.

(EN) Um arrependimento.

PW - Todos temos nossos arrependimentos, mas não tenho nenhum importante.

(EN) Uma benção.

PW - Uma benção? O que quer dizer com isso?

(EN) Algum presente, algo muito importante que tenha recebido.

PW - Me sinto feliz somente por estar vivo...

(EN) Para finalizar, o que o leitor pode fazer no dia-a-dia para mudar seu entorno?

PW - Acho que a força de qualquer movimento tem que estar apoiada na diversidade, assim como a força do ecossistema está apoiada sobre isso. Diversidade de protesto, de táticas, de ideias. Nós podemos alcançar as pessoas se usarmos nossa própria experiência, habilidades, imaginação, talentos, e colocar isso tudo a serviço da construção de um mundo melhor. Não importa qual seja seu protesto, a legislação, educação, ou se você é um escritor, professor, advogado, qualquer coisa que você faça, você deve fazer o melhor pelo planeta e nunca se esquecer de que são indivíduos que mudam o mundo. Indivíduos motivados por paixão ou compaixão que promovem uma significante mudança social. Nunca houve na história da humanidade uma revolução social incentivada por um governo ou uma organização midiática. Todas as revoluções sociais foram motivadas pela paixão dos indivíduos, de Martim Luther King a Nelson Mandella... Você não pode admitir que alguém lhe diga que você não pode fazer essa diferença, todos nós temos esse poder.

 

 

Para mais informações sobre a ONG fundada por Paul Watson, visite a página:

www.seashepherd.org

N.E. Há uma ONG chamada Instituto Sea Shepherd no Brasil, mas Paul Watson afirma que apesar de eles terem direito de usar o mesmo nome, a Sea Shepherd internacional não responde por suas ações, sendo a entidade brasileira independente.

 

 

Aggnes Franco Eco Notícias

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