Agrotóxicos

A agricultura é hoje considerada uma das formas mais desleais de disseminar a contaminação. Vemos a fumaça que sai das chaminés das fábricas, dos escapes dos carros. Vemos a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maçã na quitanda da esquina, nem imaginamos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar. E, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada no caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Ou seja, eles penetram e circulam na seiva da planta para melhor ‘atingir’ os insetos que se alimentam dessa planta ao sugar a sua seiva. Mesmo lavando a fruta antes de comê-la, alguns desses venenos não são eliminados.

 

A Problemática dos Agrotóxicos

Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde. Mas, se eu comer 100 gramas de sal morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas também poderemos morrer afogados.

De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado às substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos: sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico, nitratos, ureia etc. Porém, este raciocínio não se aplica a biocidas, sejam eles em pequenas ou grandes doses.

Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara a uma picada de cascavel, mas é um estrago. E se levarmos diariamente uma nova alfinetada no mesmo lugar? Além disso: se a alfinetada for no traseiro podemos até rir, mas já no olho, é outra coisa. Assim, não são levados em conta os efeitos crônicos provocados pela ingestão dos agrotóxicos contidos nos alimentos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, o sistema renal, o sistema imunológico?

Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imunológico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Contudo, os executivos da indústria química dormem tranquilos.

Não somente os agricultores são mantidos na ignorância dos efeitos nocivos dos agrotóxicos e tornam-se assim as primeiras vítimas, mas os médicos que tratam das vítimas são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos tais produtos (dados que só a indústria conhece). São comuns tratamentos inadequados, pois os médicos acabam por confundir os sintomas.

Além dos estragos ecológicos, o uso indiscriminado da química na agricultura, aliado a outros fatores, tem levado a uma situação de contaminação geral dos alimentos com resíduos de produtos sintéticos e outras substâncias.

 

Agricultura Ecológica

Hoje são raros os alimentos puros. Com a maioria deles, ingerimos todo um espectro de substâncias estranhas à vida, muitas delas venenosas. É verdade que as doses são pequenas, quase homeopáticas, de modo a não causar dano imediatamente aparente. Mas a intoxicação é constante, cumulativa e descontrolada. E os efeitos são imprevisíveis.

Podem ser vistos anúncios na TV, como aquele do bebê dormindo enquanto a mãe aplica spray de inseticidas contra o mosquito em torno do berço. Quando acontecem calamidades evidentes, a indústria sempre procura culpar o que ela chama de “mau uso”. Mas esse mau uso é ela mesma quem promove e dissemina através dos anúncios criminosos que faz.

 

Inseticidas Domésticos

Contraditoriamente, os órgãos públicos aceitam, sem crítica, a filosofia da indústria química. Mas com a química só tratamos sintomas. Precisamos acabar com as causas. E precisamos de novas atitudes.

O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga não ataca as plantas se as mesmas estiverem bem equilibradas. A praga é sintoma, não a causa do problema. Com um manejo adequado do solo, o que inclui descanso da terra, compostagem de resíduos vegetais e animais, adubação verde, adubação foliar, cobertura morta, rotação de cultivos, plantas companheiras e muitas outras práticas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas.  

O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas sem procurar as causas dos mesmos. Com a utilização de agrotóxicos, os agricultores biológicos modernos obtêm resultados mais rápidos, mas prejudiciais à saúde.

 

Colheitas e Pragas. A Resposta está nos Venenos?

Francis Chaboussou, um pesquisador francês no INRA (Institut National de la Recherche Agronomique), em seu livro propõe a teoria da “Trofobiose”. Em sua expressão mais sucinta esta teoria diz que o parasita morre de fome na planta sã! Um aparente paradoxo.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, levados ao solo pela chuva, contribuem a uma destruição ainda maior da microvida.

A agricultura ecológica sabe que fertilidade do solo e saúde da planta são fatores inseparáveis. A preocupação fundamental do agricultor ecológico é manter e melhorar constantemente a fertilidade natural do solo. Ele sabe que a fertilidade do solo depende fundamentalmente de sua microvida. Um solo vivo também é muito mais resistente à erosão. Portanto, a agricultura ecológica não significa uma volta ao passado. Somente a agricultura ecológica é indefinidamente sustentável. Ela contribui para um futuro melhor para nossos filhos, porque melhora a fertilidade do solo.

Autoria Referência Bibliográfica: “Ecologia – do jardim ao poder” (1985); “Manual de ecologia - do jardim ao poder” (2004)


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