Gaia

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Gaia

A Ecosfera não é um simples sistema homeostático, automático, químico-mecânico. O Planeta Terra é um sistema vivo, um organismo vivo com identidade própria, o único de sua espécie que conhecemos. Se outras gaias existem no Universo, em nossa ou em outras galáxias, serão todas diferentes. Um sistema vivo tão destacado merece nome próprio. O nome GAIA foi proposto por William Golding, escritor, e lançado por Lovelock e Margulis. É o nome que os antigos gregos, em sua cosmovisão bem mais holística que a nossa, davam à deusa Terra.
 
É claro que a Terra não é um ser vivo como uma planta ou um animal individual, que nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem, mas é um sistema vivo, como o é um bosque, um serrado ou banhado, porém num nível de organização superior ao destes.
 
Tornou-se comum a imagem da Terra como uma nave espacial. É uma figura boa diante da visão convencional, na qual a Terra é apenas substrato ou palco para a Vida, e a Vida, para nós Humanos, não passa de recursos. Haja vista nossa atitude diante da Amazônia. Mas a imagem da nave espacial engana. Uma nave tem passageiros. Em GAIA não há passageiros, tudo é e todos somos GAIA. Usando outra imagem, não teria sentido dizer que meu coração ou meu cérebro são passageiros meus.
 
Até a parte mineral, os continentes, as rochas - do ar e da água já não precisamos falar - são parte integrante de GAIA, como o caracol ou a concha o são do molusco. Parece que a deriva dos continentes, causa do vulcanismo e do crescimento de novas montanhas, enquanto as velhas se desgastam, é pelo menos influenciada também pela sedimentação no fundo dos oceanos.
 
Os radiolários e as diatomáceas com suas belíssimas carapaças de sílica, junto com aqueles outros organismos que depositam cálcio, incluindo certas algas marinhas, fazem deposições de quilômetros de espessura no fundo dos mares. Com isto se altera o efeito isolante para o calor do magma e alteram-se as condições de pressão, surgem aqueles fluxos que movimentam as placas continentais. Esta é a reciclagem que acaba devolvendo aos continentes os nutrientes perdidos aos oceanos, dando-lhes rochas novas. Um ciclo que leva uns duzentos milhões de anos.
 
No organismo de GAIA nós humanos, individualmente, somos como células de um de seus tecidos. Um tecido que hoje se apresenta canceroso, mas que, oxalá, ainda tem cura. Já somos os olhos de GAIA.Com os olhos dos astronautas e nas imagens de satélite, GAIA, pela primeira vez, viu-se a si mesma em toda sua singela beleza - brancos véus lentamente espiralando, ora tapando, ora revelando o azul profundo dos oceanos, o amarelo dos desertos, as diferentes tonalidades de verde; ora confundindo-se com os pólos.
 
Poucos, pouquíssimos, dão-se conta do monumental, não somente em termos de História Humana, mas em termos de História da Vida, que representa aquela primeira foto de GAIA, ou aquela outra de Meia GAIA subindo solitária no firmamento, negro como piche, da Lua!
 
Este é um fato totalmente novo! Um momento decisivo na vida de GAIA. Uma situação faustiana. O homem, conhecendo demais, talvez cedo demais, cego de orgulho e com gula incontrolável, desencadeou um processo de demolição que supera todas as crises anteriores.
 
 
Crise Climática
 
Ao apontar a hoje baixa concentração de gás carbônico na atmosfera, a Sociedade Industrial já está interferindo significativamente, contrariando as tendências de GAIA, em um de seus importantes sistemas de controle. A concentração antes do alastramento da industrialização estava próxima de 0,025%. Já conseguimos aumentá-la uns 30% em menos de 200 anos, uma fração de segundos na escala de tempo de vida de GAIA.
 
Talvez a razão porque ainda não estamos sentindo consequências muito graves seja só porque, também cegamente, estamos concomitantemente interferindo em outros mecanismos de controle que têm efeito contrário. Estamos aumentando a concentração dos aerossóis* e das poeiras no ar que, refletindo radiação solar, devolvem energia ao espaço.
 
Aliás, nesta questão do controle térmico pela diminuição da concentração do gás carbônico, GAIA já estava chegando a um limite. Já não pode baixar muito mais esta concentração. Por duas razões muito simples: Se baixar muito mais, as plantas acabarão morrendo à míngua. Para elas o CO2 é o nutriente principal. Só não é mencionado nos manuais de adubação dos agrônomos porque está gratuito no ar e ainda não dá para fazer negócio com ele. A outra razão é que, em termos de diminuição de efeito estufa já não dá para ganhar quase nada com a concentração baixa como está.
 
Talvez seja esta a causa da crise climática de Pleistoceno. Neste último período geológico, durante os últimos três milhões de anos, menos de um dia na vida de GAIA, tivemos as quatro grandes eras glaciais. Quando um sistema homeostático bem equilibrado começa a se desequilibrar, antes de entrar em colapso ou reequilibrar-se, é comum aparecerem vibrações irregulares, com exageros para ambos os lados. Algo deste tipo pode ter acontecido no Pleistoceno. Lovelock gostava de dizer que GAIA estava com febre.
 
Entretanto, após o fim da última grande glaciação, parece que GAIA já tinha encontrado nova solução**. De lá para cá,um período muito curto, uns 5.000 anos apenas, minutos na cronologia de GAIA, alastraram-se as florestas tropicais úmidas no que hoje chamamos Amazônia, Congo, Índia, Sri Lanca, Bangladesh, Indochina, Indonésia, Oceania, Austrália. As florestas tropicais úmidas têm uma fantástica evapotranspiração. Da água da chuva que sobre elas cai, em menos de dois dias até 75% é devolvida à Atmosfera, formando novas nuvens que voltam a produzir chuva mais adiante. Como mostrou Salati***, as chuvas que caem nas faldas orientais dos Andes estão constituídas de água que, em seu caminho desde as primeiras nuvens dos ventos alíseos na costa Atlântica, caiu e voltou às nuvens entre cinco e sete vezes.
 
As florestas tropicais úmidas estão sobre o Equador, sua influência climática se exerce sobre ambos os hemisférios, fato este hoje lindamente ilustrado, como num filme, nas imagens móveis de satélite nos institutos metereológicos. Ora, estas grandes florestas, para o clima global, são gigantescos aparelhos de ar condicionado. Convém lembrar que as comunidades florísticas e os ecossistemas das atuais florestas tropicais úmidas são muito antigos, evoluíram nos últimos duzentos milhões de anos, o que é novo é sua presente extensão.
 
GAIA, por uma razão muito importante, desde que inverteu a Atmosfera de reduzinte para oxidante, soube manter sempre a concentração de oxigênio por volta dos 20%. Concentrações mais baixas tornariam difícil a vida animal. Uma vez que tudo está ligado com tudo, todas as formas de vida sofreriam. Por outro lado, concentrações superiores seriam ainda mais perigosas. Facilmente levariam a um holocausto.
 
* Não confundir com Clorofluorcarbonos - CFCs, estes, em geral, são comumente chamados de aerossóis por serem usados nesta forma. Aerossol se refere à suspensão de pequenas partículas líquidas e/ou sólidas em um gás, como o é a nuvem.
** Quando usamos este tipo de linguagem não queremos sugerir que GAIA toma decisões conscientes, é apenas uma pequena liberdade poética, queremos suscitar emoção.
*** Eneas Salati: Climatólogo da Universidade de Piracicaba, São Paulo, Brasil, foi chefe do INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

 

Autoria José A. Lutzenberger Março de 1986 Revisão e ampliação Setembro de l994


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